26.1.26

A Montanha, de José Luís Peixoto

23:37


Acabei de ler “A Montanha”, de José Luís Peixoto.

À partida, parece ter um assunto: pessoas com cancro. Aquelas coisas que se leem antes de ler o livro, que são objeto da nossa bisbilhotice na livraria quando estamos a decidir comprar, indicam que o livro está povoado de pessoas com cancro, que são consideradas por terem essa experiência… de vida… e de morte. A promessa é razoavelmente clara e deixa-nos à espera de uma certa densidade emocional em torno de experiências que se nos apresentam sempre como experiências-limite: experiências-limite para quem as vive, promessas de experiências de susto para quem as lê, ou ouve, ou acompanha. O livro estará povoado de pessoas com a experiência do cancro. De variados cancros.

A Infopédia diz que “romance” é um “género narrativo ficcional em prosa, mais longo que a novela e o conto, em que as personagens são apresentadas com maior densidade psicológica, e o tempo e o espaço são categorias mais elaboradas”. Outras fontes acentuariam a complexidade do enredo, personagens que evoluem, a construção de um ambiente (uma época, um lugar, um contexto histórico ou social).

“A Montanha” é um romance. Neste “A Montanha” há um romance. Há a complexidade que se pode encontrar em personagens de um romance. Há um enredo. Há um contexto em que nos afundamos (vá: em que nos aprofundamos).

O que pode acontecer é que as personagens complexas que evoluem talvez não sejam aquilo que passamos grande parte do livro a pensar que sejam. Talvez o que está a evoluir – quem está a evoluir – não seja quem nós pensamos que está a evoluir. Talvez se possa dizer que passamos grande parte do livro a pensar que o “contexto” é um, quando, afinal, é outro.

Durante boa parte do livro, pensamos que a trama do romance se cruza com uma certa e determinada teoria sobre a literatura. Faz, mesmo, sentido, que assim seja, porque a forma como as pessoas com cancro nos aparecem (nos são apresentadas) está sintonizada, ou mesmo sincronizada, com essa tal teoria acerca da literatura. Parecemos estar a ser levados por histórias de vidas cuja narração se justifica, ou pode ser espelhada, naquela teoria sobre literatura. Acreditamos estar numa viagem intelectual onde se pensa o trabalho do escritor olhando para um produto concreto do trabalho de um escritor concreto. É a teoria a dizer coisas verificáveis sobre a prática. Um milagre, caramba!

Só que, num determinado ponto do caminho, o que parecia mais uma caminhada numa longa série de caminhadas de um mesmo estilo, desvia-se do compreensível a essa luz. Suspeitamos que podemos ter-nos perdido numa vereda e estarmos a experimentar dificuldades respiratórias que afetam o funcionamento do nosso cérebro e prejudicam a nossa lucidez para aperceber as circunstâncias. O território da estranheza instala-se como um plano próprio do romance. Andamos às voltas, imaginamos possíveis luzes que sejam capazes de dar sentido ao que estamos a ler, mas não parecem funcionar: não são particularmente iluminantes e sentimos que estamos a deslocar-nos para uma obra que se desviou para o campo do fantástico. Eu não tenho experiência com este Autor e não tenho ferramentas para perceber se ele costuma descarrilar assim, o que se torna um pouco mais preocupante quando ele insiste amiúde que está a fazer coisas que faz recorrentemente em todas as suas obras romanescas. 

O narrador, em todas estas convoluções, age como alguém que lida com grande destreza com uma rede de relações humanas complexas, onde alguns nodos são as tais pessoas com cancro, outros nodos dessa rede sempre profissionais de várias especialidades que lidam com essas pessoas com cancro. O narrador domina toda essa rede de relações, baralha e torna a dar os elos, amparado na tal teoria sobre literatura, é o mestre da obra, vê de cima e com uma brutal capacidade de distanciamento aquele mundo que observa, descreve e escreve. É o seu romance e ele é o romancista. 

Mas, contudo, há o tal momento onde a estranheza se entranha. Onda a estranheza passa a dominar. Onde avançamos mais devagar, procurando sítio para pisar sem os pés se enterrarem: isto é, vamos avançando hipóteses acerca do que aquilo é.

E, mergulhados nessa estranheza, chegará o momento de ver a luz. É o momento do esclarecimento. É certo que esse esclarecimento se fará à custa de todas as qualidades do narrador, que teremos de rever radicalmente. Mas chega esse momento, o momento do esclarecimento. Só que, então, será preciso repensar tudo acerca de qual é o contexto, de quais são as personagens que evoluem, que evolução é essa. A hipótese simples acerca da relação entre uma teoria da literatura e o enredo romanesco deste romance deixa de ser uma hipótese simples e encontra outros mundos. É uma revelação. É uma revelação interior, porque denuncia radicalmente a incerteza fundadora de tudo o que possamos pensar que sejam as nossas certezas. Não é só o leitor que anda muito enganado. Outros grandes enganos estruturam o terreno.

Poucas vezes me terá acontecido isto: voltar a ler, no dia seguinte, os dois últimos capítulos do romance. Não que não tivesse compreendido a volta que aí se dá. Eu tinha compreendido. Mas não tinha compreendido. Precisava de voltar a percorrer esse caminho. Para gozar, mais completamente, a solidez da coerência com que a obra cose o turbilhão de mudanças que nela se opera.

Esta “A Montanha” não é “A Montanha Mágica”. Talvez, também, porque o embotamento dos sentidos sociais, que n’A Montanha Mágica está nas personagens, aqui está no leitor. No leitor d’A Montanha. Que ficamos a dever a José Luís Peixoto.



Porfírio Silva, 26 de Janeiro de 2026
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24.1.26

Mini-podcast - Série "Meritocracia" / 1

21:28



Regressa o mini-podcast Machina Speculatrix, agora com uma série de episódios dedicados ao tema "meritocracia".

Deixamos aqui o aviso que passa a estar inserido no final de cada um dos episódios: este mini-podcast é produzido por uma colaboração entre inteligência natural e inteligência artificial.


Porfírio Silva, 24 de Janeiro de 2026
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4.1.26

A guerra de Trump

15:37




Com a tradução (por IA, sem revisão) de um excerto, chamo a vossa atenção para um texto publicado on-line, na The New York Review of Books, com data de 3-01-2026 e o título original Trump’s War, da autoria de David Cole. David Cole é Professor Visitante Samuel Rubin de Direito na Universidade de Columbia e antigo Director Jurídico Nacional da American Civil Liberties Union. 
O texto completo, no original, pode ser lido aqui: Trump’s War.

***

“Foi, na verdade, uma operação brilhante”, afirmou Donald Trump ao início desta manhã... 

(...)

A escalada de ataques militares de Trump contra a Venezuela não são inteiramente sem precedentes. Afinal, está longe de ser o primeiro presidente a atacar edifícios — ou mesmo a matar pessoas — no estrangeiro com base em alegações de legítima defesa. Em 1998, Bill Clinton ordenou o bombardeamento de uma fábrica farmacêutica no Sudão, alegadamente para impedir que Osama bin Laden tivesse acesso a gás nervoso, depois de a al-Qaeda ter atacado as embaixadas dos EUA no Quénia e na Tanzânia. (A alegação de Clinton de que a fábrica teria qualquer ligação a gás nervoso nunca foi provada.) Após o 11 de Setembro, George W. Bush autorizou ataques militares contra presumíveis militantes da al-Qaeda em vários países estrangeiros, matando muitas vezes civis inocentes no processo. Barack Obama ordenou o assassinato de bin Laden no Paquistão, bem como numerosos ataques por drones contra outros supostos terroristas noutros locais, incluindo Anwar al-Awlaki, cidadão norte-americano morto no Iémen. Estas acções suscitaram muitas questões jurídicas difíceis ao abrigo do direito internacional e do direito da guerra, algumas das quais abordei nestas páginas. Em muitos casos, os ataques foram ilegais e, em certa medida, abriram caminho ao assalto de Trump à Venezuela.

Mas, noutros aspectos, a “operação brilhante” de Trump não tem paralelo na história moderna dos Estados Unidos. Esses ataques anteriores ocorreram em resposta a ataques efectivos, ou ameaçados, contra os EUA. Em contraste, as acções unilaterais de Trump contra a Venezuela foram inteiramente não provocadas. A implicação do raciocínio da administração é a de que os países podem recorrer à força militar sempre que estejam descontentes com a forma como outro país regula — ou deixa de regular — condutas dentro das suas fronteiras que possam ter efeitos lesivos noutros lugares. Mas isto é absurdo. Pela lógica da administração, o Canadá poderia começar a alvejar norte-americanos suspeitos de transportarem drogas através da fronteira entre os EUA e o Canadá, ou bombardear edifícios nos EUA que alegasse estarem a ser usados para fabricar essas drogas. O México poderia fazer o mesmo relativamente a fabricantes norte-americanos de armas que são rotineiramente utilizadas na violência de gangues, que mata muitos milhares de mexicanos todos os anos. Em Junho, o Supremo Tribunal dos EUA decidiu que uma lei federal impedia o México de processar a Smith & Wesson e outros fabricantes de armas norte-americanos pelas mortes e ferimentos que as suas armas facilitaram. Mas, se o raciocínio de Trump fosse válido, o México nem teria de se ter dado ao trabalho de observar a formalidade de intentar uma acção judicial. Poderia simplesmente fazer desaparecer a Smith & Wesson através de um bombardeamento, a título de “legítima defesa”.

(...)

O precedente mais próximo para as últimas acções de Trump poderá ser a captura e o julgamento de Manuel Noriega, no Panamá, em 1989. Também aí invadimos outro país para levar o seu pretenso líder a julgamento. Mas essa actuação foi amplamente condenada como ilegal — não um precedente de que nos devamos orgulhar, muito menos a repetir. E a situação no Panamá era materialmente diferente em vários aspectos. O Panamá tinha declarado um “estado de guerra” com os Estados Unidos e matou um fuzileiro norte-americano, e nós tínhamos no país uma enorme base da Força Aérea e milhares de cidadãos norte-americanos que alegámos estar em risco.

A Venezuela, pelo contrário, não se envolveu connosco em quaisquer hostilidades, nem conduziu quaisquer hostilidades contra nós — mesmo depois de termos matado mais de uma centena de civis em execuções sumárias ilegais a partir do ar, bloqueado os seus petroleiros e destruído um cais de carregamento no seu país. Em retrospectiva, é claro que Trump estava a provocar Maduro, tentando arrastá-lo para a guerra. Ele nunca mordeu o isco. Mas isso não travou Trump. Agora “mandamos no país” — e parecemos prestes a controlar o seu petróleo. Brilhante, de facto.


David Cole

***


   Porfírio Silva, 4 de Janeiro de 2025
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2.1.26

40 anos de adesão e um governo de falsificadores da história


O ministério de Paulo Rangel, a que oficialmente se chama Ministério dos Negócios Estrangeiros, reincide.
A canhestra manobra já foi ensaiada há uns meses: falsificando a história, tentam fazer crer aos incautos (ou aos ignorantes) que a adesão de Portugal à União Europeia (então, Comunidade Económica Europeia) foi obra do PSD ou, mesmo, de Cavaco Silva. É essa mistificação que fica ilustrada pela publicação cuja imagem parcial ilustra este apontamento. Mas não foi isso que aconteceu. A adesão europeia foi obra do PS, foi obra da visão de Mário Soares - e também da sua determinação. Claro, abrangendo muitos outros europeístas, também do PSD, mas com uma clara liderança de Mário Soares.
Cavaco Silva, nesse processo, teve dois papéis: o papel mesquinho de tentar adiar a assinatura do ato de adesão, depois de estar marcado para Lisboa palco da Europa, o que deixaria Portugal atrás da Espanha, apenas por puro interesse pessoal (nem sequer partidário, porque o PSD estava no governo, mas um governo que ele tinha decidido derrubar); o papel de beneficiar da torrente de fundos europeus para facilitar a sua futura governação, apesar de nada ter feito para os obter (como a actual AD quer fazer com o PRR, mas, ainda assim, com muito mais incompetência do que Cavaco ao tempo).
Alguns meses atrás andou Paulo Rangel nesta campanha. Tive, na altura, ensejo de lhe sair ao caminho, com um artigo no Público, motivado por ter assistido pessoalmente à sua oratória mistificadora. Nessas ocasião, dezenas de pessoas que conheciam, até por dever profissional, o que se tinha passado, ficaram boquiabertas com a desfaçatez do ministro Rangel nessa sessão. Agora, reincide. Não é, pois, que esteja momentaneamente a tresler: está numa campanha de falsificação da história.
É triste que Portugal tenha chegado ao ponto de ter um governinho de falsificadores da história.
Deixo imagem do meu artigo no Público (17/06/2025), que também pode ser lido clicando aqui: Mário Soares, a adesão europeia e os revisionistas.




Porfírio Silva, 2 de Janeiro de 2026
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30.12.25

As Presidenciais de 2026




1. Nas eleições presidenciais de janeiro de 2026 está em causa eleger um Presidente da República que cumpra e faça cumprir a Constituição da República Portuguesa, que garanta o regular funcionamento das instituições democráticas - e, para isso, não esteja sempre a inventar teorias próprias (até por falar demais) que, depois, o arrastam para intervenções que resultam no abalroamento dos demais órgãos de soberania, na interrupção avulsa dos ciclos governativos e na progressão das forças antidemocráticas que se têm alimentado da campanha eleitoral constante.

2. Para atingir tal objetivo, acredito ser importante que não seja eleito nenhum dos candidatos que se limitariam a reforçar a atual coligação informal no poder: Montenegro, Nuno Melo e André Ventura. O próprio AV poderia querer ir além disso, mas, apenas, reforçando o seu peso no saco global da atual direita, onde o atual PSD e o atual CDS estão subjugados à logica da extrema-direita. Marques Mendes faria o mesmo papel de reforço da coligação informal no poder, embora pesando mais do lado daquela que foi em tempos a direita tradicional. O candidato Henrique Gouveia e Melo gostaria que acreditássemos que ele seria um bom Presidente: talvez ele tenha razão, talvez ele até pudesse vir a ser um bom Presidente, mas, para o bem e para o mal, nada do que tem dito ou feito desde que se apresentou como candidato nos tem dado garantias sólidas do que seria no cargo – e o país não está para aventuras. Por isso, também nós não devemos estar para aventuras.

3. Neste contexto, o importante, para já, é que na segunda volta não tenhamos apenas candidatos da direita. O objetivo que me fixo é que haja escolha na segunda volta e que nessa escolha caiba alguém que, claramente, tenha provas dadas de fidelidade à Constituição. 

4. E não há outra maneira de alcançar esse desiderato a não ser votando em António José Seguro, votando em número suficiente para o fazer passar à segunda volta.

5. Não vai, nesta análise, nenhuma falta de consideração por outros candidatos de esquerda, como António Filipe, Catarina Martins ou Jorge Pinto. Apesar das discordâncias com algumas coisas que têm dito, são estimáveis – mas não estão em condições de contribuir para evitar que a segunda volta seja entregue apenas a candidatos de direita. 

6. É um erro pensar que a primeira volta não interessa e que na segunda volta logo pensamos o que fazer. É à primeira volta que temos de garantir que as nossas opções não ficam limitadas a escolher entre dois (diferentes ) candidatos de direita. É o nosso voto na primeira volta que vai definir o que estará ao nosso alcance no resultado final.

7. Por isto, apoio o candidato António José Seguro.

8. O meu voto em António José Seguro não tem nada a ver com lutas passadas dentro do PS. Dentro do PS, nunca apoiei António José Seguro (nem ele me apoiou a mim!). Do mesmo modo que, em 2014, apoiei António Costa, mesmo sendo igualmente verdade que, antes, nunca o tinha apoiado em nada de partidário (e vice-versa). Não estamos a escolher ministros, nem primeiros-ministros, nem secretários-gerais, nem líderes de facção: estamos a escolher um Presidente. Não confundamos as coisas.

9. Não tenho da política a visão romântica que espera pelo cavaleiro andante das virtudes. Não voto para santidades, nem para heróis. Voto para certas pessoas, concretas, reais, de carne e osso, em certas circunstâncias, desempenharem certos cargos – e voto para evitar que outros lá cheguem. Nesta Presidenciais, antes de elas efetivamente começarem, o meu candidato preferido seria Mário Centeno, por me parecer que era o que, partindo da esquerda democrática, mais potencial tinha, à partida, para alargar o seu campo eleitoral. Mas essa candidatura não está em cima da mesa, nem no boletim de voto. O meu voto é para escolher na circunstância que se nos apresenta, como se apresenta. Para evitar que isto seja um passeio de variantes da direita, para garantir que não tenhamos de escolher entre direita e direita, voto António José Seguro. Não será um santo, nem um cavaleiro andante, mas será, de todos os que se apresentam, o que dá mais garantias de cumprir e fazer cumprir a Constituição, de assegurar o regular funcionamento das instituições e de não dar alimento aos fascistas – nem aos que caem nos seus cantos de sereia.



Porfírio Silva, 30 de Dezembro de 2025
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